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Violência nas escolas: causas e consequências

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Violência nas escolas: causas e consequências

 

Alunos desmotivados pelas perspectivas de desemprego. Visão negativa da escola. Responsabilidade social, punições individuais. Professores crispados pelas políticas educativas. São estas as principais causas da indisciplina e da violência nas escolas.

 

Algumas reflexões:

 

Diz Manuel Matos, investigador e docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto.

"Há um contexto favorável à ocorrência de rebeliões".  A violência na escola é um assunto "velho" com uma nova visibilidade.

"Boa parte dos alunos problemáticos não esperam nada da escola, estão lá apenas porque não têm outras alternativas e são forçados a isso"

 "A família obriga e o Estado não apresenta alternativa em termos de programas de trabalho."

Para o investigador, os fenómenos de indisciplina ou violência são gerados colectivamente. A turma constitui um colectivo. E portanto, "é difícil identificar quem é o responsável". Embora o acto de indisciplina apareça encabeçado, "o protagonista não é necessariamente o principal responsável pela cena, porque a responsabilidade gera-se num contexto colectivo".

 

Responsabilidade colectiva, sanções individuais?

 

Mas se a responsabilidade é colectiva, a sanção é normalmente individual. "Quando a opinião pública, os jornais e as autoridades responsáveis exigem a punição, evidentemente que o fazem em nome da exemplaridade do castigo, portanto, isso aponta para o “bode expiatório”.

 Resumindo: alguém tem de ser responsável porque não se pode punir a turma inteira.

"Há um conflito entre a pedagogia e a lei." A escola deveria reger-se por princípios pedagógicos e não jurídicos, no entanto "as autoridades tendem a socorrer-se de mecanismos jurídicos porque supõem que na origem destes incidentes estão fenómenos sociais e não pedagógicos".

Ao mesmo tempo, critica o investigador, e "hipocritamente" recusa-se a responsabilidade social por este cenário e apontam-se os sujeitos individuais ou a sua família. "É um problema de difícil solução porque a causalidade está num contexto que vai para além da responsabilidade individual", conclui o investigador.

 

Sem motivação para o estudo

 

"Há um clima incontrolável" que, encontra acolhimento nos contextos sociais e está na base da indisciplina. "Os alunos muitas vezes dizem que a escola é boa, as aulas é que são uma seca", esta distinção prova que "o tempo de ócio é cada vez mais significativo na vida da escola e a apetência para estudar menor". Acresce que, "com o desemprego e a ameaça de ir fazer coisas que ninguém quer, os alunos perdem a razão do trabalho escolar, ou seja, do estudo".

Por outro lado, sendo uma boa parte dos alunos, actualmente no 3.º ciclo e ensino secundário, oriundos de famílias com escolaridade máxima de 6.º ano, não dispõem em casa de uma cultura escolar acentuada. A uma certa distância escolar, por parte da família, soma-se a falta de motivação em termos de utilidade do estudo. O resultado: a escola passa a ser valorizada com base na socialização horizontal, do gozo e da fruição. Desvaloriza-se a sua função educativa.

Os alunos não têm motivações para se dedicarem aos estudos, mas a escola exige cada vez mais deles. Seja com os exames nacionais, os rankings ou os professores a serem avaliados pelas notas que dão aos seus alunos. "Cria-se uma dinâmica contraditória e um clima constrangedor que gera a rebelião".

"Não se pode esquecer que os jovens estão numa fase de expansão da sua natureza, a adolescência, uma altura em que a disciplina é o pior". Quanto mais se reprime, maior a apetência para a explosão.


O medo substitui a relação pedagógica

 

A cobertura dada ao fenómeno está a criar, em torno da questão da indisciplina e violência escolar, uma dinâmica de natureza repressiva, que supõe o desenvolvimento de sentimentos negativos, como o medo, como forma de substituir a relação pedagógica.

"O pânico vem do facto de a escola ser vista como uma preparação para a vida, e logo, uma péssima preparação se não exerce as suas funções", então "por um lado, está o escândalo que é a violência na escola e, ao mesmo tempo, o pânico que é uma sociedade mal acautelada na sua fase de preparação".

No entanto, "é preciso perceber que já não estamos no tempo em que só se admitia na escola quem vinha com a educação familiar resolvida". Manuel Matos entende o recurso à violência "como uma situação que vem na sequência de um destino trágico que é o facto de estes alunos não terem um projecto". Neste sentido, "a escola deveria, prioritariamente, tomar conta destes alunos, num sentido positivo, e não responsabilizar as famílias que muitas vezes também são marginais".

No geral, por mais debates e programas televisivos que se façam sobre esta matéria, o essencial é não perder de vista que "os actores da violência são muito mais vítimas do que autores", até porque, "ninguém nasce vocacionado para a violência".

 

A violência nas escolas

 

Quando as crianças ou jovens são vítimas de bullying ou mesmo de agressões esporádicas podem tender a calar-se, por receio de represálias ou por vergonha. São os sinais detectados por observadores atentos, como os pais ou professores, que muitas vezes, principalmente se houver coordenação entre ambos, permitem a detecção do problema. Sintomas, antes inexistentes, podem servir de alerta: dificuldade em adormecer; falta de apetite; tristeza; falta de vontade de ir ao recreio, procurando retardar a saída da sala; interacções suspeitas, observadas pelos professores quando passam nos recreios; quebra do rendimento escolar.

 

E o que acontece a cada uma destas vítimas? Apesar da diversidade de reacções, certamente não deixará de haver, entre as marcas que ficam, medo e sentimento de que a escola deixou de ser um lugar seguro, pelo menos enquanto os agressores circulam impunemente. A escola precisa de ser um lugar realmente seguro e só quem não vive nela pode acreditar que estas situações não fazem parte crescentemente, em maior ou menor grau, dos seus problemas.

 

É precisar ousar denunciar as situações de agressão e bullying.

 

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